quinta-feira, 4 de junho de 2015

Crianças de rua: “Capitães da Areia”, Jorge Amado

Cena do filme "Capitães da Areia", 2011

Pensar a violência no âmbito literário é um desafio, e relacioná-lo a partir de uma análise sociológica é ainda maior. A violência vista sob a ótica da literatura nos permite pensar como esta aparece como parte constituinte da cultura nacional, e como o próprio Scollhammer afirma, é possível percebê-la “como elemento fundador”. De modo que a obra literária nos permite participar da simbolização da violência e nos dá suporte para explorar a criatividade e transgredir os possíveis limites que são expressos na forma escrita. E com base nas apreensões sociológicas dos diversos autores que pontuam essa temática, perceber como o fenômeno da violência perpassa os contextos sociais e que afetam diretamente os indivíduos nas mais diversas sociedades, e principalmente a sociedade brasileira, vista como “um dom de Deus e da Natureza” (Chauí, Marilena. P.8).
Pensando nisso, recorremos na obra de Jorge Amado intitulada “Capitães da Areia”, para refletir sob o olhar da crítica social do autor sobre os meninos de rua, e nos aportando teoricamente quanto ao fenômeno identificado dentro do universo destes. Não pretendemos fazer uma apreensão da narrativa em si, como a descrição das personagens e todo o desenrolar da obra de Jorge Amado. O que de fato queremos, é fazer uma análise sociológica da temática das crianças de rua e como a violência é refletida nesse contexto, mas não cessaremos de recorrer em alguns dos discursos proferidos pelo autor em sua obra.
“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem” (AMADO, 1984, p.25).  Mas não se trata de quaisquer crianças: são meninos de rua no contexto histórico da década de 30 no Brasil. São os “Capitães da Areia”, que percorrem as ruas e vielas da Bahia de todos os santos. Jorge Amado, através de sua obra vem, ao seu modo, fazer uma (ou várias) denúncia quanto à questão das crianças abandonadas do território baiano. Ele procura narrar em suas páginas, à vida cotidiana desse grupo que vive nas ruas da capital baiana, cometendo pequenos delitos, furtos e aventuras. Amado de modo intencional vem denunciar o descaso por parte das autoridades do Estado e da própria sociedade, que veem nessas crianças verdadeiros bandidos e que merecem punições cabíveis a seus atos. Percebemos isso quando Martuccelli vem dizer que O sentido da violência deve ser procurado menos no interior da subjetividade do ator, e mais a partir do referencial das redes sociais e das coações materiais legítimas onde o indivíduo está colocado”.
Mesmo sendo crianças, Amado vem nos dizer que são tratados como homens, pois desde cedo conhecem as artimanhas de como sobreviver, mesmo no abandono, a violência e os prazeres.
É evidente que o drama vivenciado por essas crianças retrata um problema dentro do seio do Estado e da própria sociedade que as vê apenas como marginais, quando ao lermos alguns dos discursos pontuados pelo autor na reportagem publicada no “Jornal da Tarde”, especificamente na página de “Fatos policiais” que diz:

Esse bando, que vive da rapina, se compõe, pelo que se sabe, de um número superior a 100 crianças das mais diversas idades, indo desde os 8 aos 16 anos. Crianças que, naturalmente, devido ao desprezo dado à sua educação por pais pouco servidos de sentimentos cristãos, se entregaram no verdor dos anos e uma vida criminosa. São chamados de “Capitães da Areia porque o cais é o seu quartel-general. E têm por comandante um molecote dos seus 14 anos, que é o mais terrível de todos, não só ladrão, como já é autor de um crime de ferimentos graves praticado na tarde de ontem”.

Mas qual será mesmo a razão da existência de crianças de ruas? A partir da análise de Eric Macé, podemos verificar os motivos dessa presença dos menores abandonados. O autor afirma que diversas pesquisas apontam para a presença desses menores nas ruas. E esta não é explicada de maneira exclusiva pela miséria de favelas, ou pela decomposição das famílias. Estas mesmas pesquisas, de acordo com Macé, se dá pela morte dos pais de muitas dessas crianças que ficam órfãos, nos quais estes por vezes são obrigados a vagarem nas ruas, mas ao mesmo tempo, muitos desses fogem por conta própria: muitos pela educação rígida e severa que tinham dentro de casa.
Pelo que vemos, há toda uma problemática que merece ser questionada em torno da questão das crianças abandonadas. E de quem é a culpa? Não adianta o senso comum afirmar que é apenas culpa dos pais que não sabem dar educação. O Estado, bem como a sociedade promove tal presença desses menores nas ruas. As desigualdades sociais, bem como, medidas preventivas de combate, são um caso sério e que merecem reflexão.
O Estado procura suprir sua ineficiência com medidas paliativas. Este, nesse contexto procura a seu modo, usar o seu poder do uso da violência física, como bem coloca Weber, barrar os atos cometidos por esses menores através de medidas repressoras, no âmbito de instituições consideradas como “socializadoras”.
É nessa questão que o título da reportagem do “Jornal da Tarde”, que Amado vai expor o modo como às autoridades viam o âmbito dos reformatórios, lugar onde os meninos que praticam atos ilícitos eram colocados, e diz o seguinte:
Um estabelecimento modelar onde reinam a paz e o trabalho – um diretor que é amigo – ótima comida- crianças ladronas em caminho da regeração- acusações improcedentes- só um incorrigível reclama- “reformatório baiano” é uma grande família- onde deviam estar “Os Capitães da Areia”.

Interessante ver esta instituição na narrativa de Jorge Amado como uma “grande família”. O autor vem contrapor o discurso anterior através da fala de uma mãe desesperada que escreve para o mesmo jornal dizendo:

“Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. O diretor de lá vive caindo de bêbado e gosta de ver o chicote cantar nas costas dos filhos dos pobres [...] É por essas e outras que existem os ‘Os Capitães da Areia’. “Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no reformatório”.(Maria Ricardina, Costureira)

Quando o líder dos “Capitães da Areia” foi levado preso para o reformatório, foi atirado dentro da cafua. Tratava-se de um pequeno quarto, onde não era possível ficar de pé, pois não havia altura necessária, e também não era possível ficar deitado, pois não tinha comprimento. Estava com sede e um copo de água foi oferecido a ele. Mas era pouca e mal matava a sede. Um dos funcionários do reformatório lhe oferece um prato de barro com uma água escura e com alguns caroços de feijão. Com toda a velocidade Pedro Bala engole e nem percebe que estava extremamente salgado. Pede água e não mais lhe oferecem. Em meio ao cubículo do qual tem que se acomodar, sente fortes dores corporais e além do mais, tem de aguentar o insuportável odor de suas próprias fezes durante dias.
O próprio Macé vem afirmar que mesmo após a adoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, muitas extorsões, como o autor pontua, por parte da própria polícia e de grupos militares, tem discutido acerca dessa questão da intervenção que vem de frente a essas crianças, que vive em meio a riscos da vida dura nas ruas, tanto riscos físicos, morais e até mesmo químicos. Acontece que, mesmo os que são dessa política que confina esses menores em casas de reeducação, com projetos que visam à retirada desses das ruas, essa questão não é de fato resolvida.
Esse modelo institucional surgiu ainda na década de 30 e 40 com nome de internato. E no ano de 1948 houve uma sensação de uma maior preocupação desses pequenos e que ganhou uma repercussão que atingiu um nível internacional. Com a criação do Fundo das Nações Unidas para a infância, comumente conhecida como UNICEF e no ano 1964, com o surgimento da FUNABEM houve a possibilidade de uma melhor coordenação centralizada e de uma fiscalização sobre o que se passava dentro dessas entidades. De acordo com Mirian Debieux Rosa:

Ao lado desta história de cuidados e descuidos, pode se constatar um discurso que contém o imaginário social sobre a questão, um discurso social de dupla mão a respeito destas crianças: o discurso da pobreza e o discurso do perigoso.[...] A representação social que associa os pobres às classes perigosas tem como consequência que as crianças e adolescentes pobres sejam vistos como perigosos ou potencialmente perigosos - os pequenos bandidos. É, portanto, sobre eles que incide, preferencialmente, o aparato repressivo-policial ou repressivo assistencial.

Pelo que vemos, não trata apenas de jogar a culpa para um lado ou outro. Toda essa problemática gira em torno de uma questão que não é só do Estado, mas da família e da própria sociedade.
É impossível acreditar que haja uma representação que permeia a mente de um povo que se diz ter orgulho de ser brasileiro, por ser livre de preconceitos e discriminação. Se ufanar por ser generoso, ordeiro e generoso, como Marilena Chauí pontua, e indignar-se com a existência de crianças de rua, com as chacinas dessas mesmas; sendo que ao mesmo tempo, na vida real posta em ação, se revela uma sociedade que tolera e admite a existência de milhões de crianças sem infância, de crianças abandonadas.

Algumas considerações

A obra de Jorge Amado vem nos trazer a luz questões de inteira relevância, ao fazer uma denúncia sobre a vida dos menores abandonados da Bahia. Mesmo sendo uma obra literária, Amado faz um profundo resgate quanto ao descaso de um problema que ocorria na década de 30, mas que ainda se encontra fortemente arraigado na sociedade brasileira. Infelizmente isso ainda ocorre, e vemos quão atual é sua discussão, se levarmos em conta que a própria analise sociológica resgata esse tema em suas considerações acerca da vida social.
A obra Capitães da Areia vem nos alertar que essa problemática precisa ser considerada e de certo modo, ser revertida em possíveis soluções, a partir de pesquisas, da própria educação, da família e do modo como as instituições estão se posicionando nessa questão, bem como o Estado está arcando com condutas desfavoráveis. Medidas paliativas certamente não hão de resolver, se faz necessário buscar no cerne de onde o problema está se proliferando. É necessário reformas das políticas públicas. Mas isso é uma questão que pode ser refletida em outra ocasião.

Gláucia Santos de Maria

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O assunto da “moda”: Violência urbana


A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais.
(Baader- Meinhof Blues Legião Urbana)


O ano de 2014 está acabando e junto dele vamos contabilizando saldos positivos e negativos daquilo que vivemos ao longo destes quase 365 dias. Sem dúvida, o ano em questão foi bastante desafiante, tendo em vista que muitas coisas aconteceram e tivemos que tomar diversas decisões: particulares, de trabalho, família, estudos, política... Sim, nas ruas, calçadas, na TV e no debate político um dos temas favoritos das pessoas, mais comentados, ao lado da educação, saúde foi à questão relativa à segurança pública, ou em termos mais “simples”, as discussões sobre violência, sobretudo: a violência urbana. Bom, traçarei algumas linhas acerca desse assunto tão “famoso” em nossos dias, por que não dizer um dos assuntos da “moda”? Vejamos.
Defendi há poucos meses em minha monografia[1] que a violência e o medo ocupam um lugar similar no medo social. De um lado, a violência urbana tem se constituído como um dos grandes desafios a ser enfrentados pelo mundo inteiro, e seus efeitos têm atingido de diversas formas os vários grupos sociais. No caso particular do Brasil, ela tem se manifestado de diferentes maneiras (assaltos, roubos, sequestros, homicídios, estupros, etc.) e têm atingido de modo (in) direto diversos atores sociais. Segundo Corrêa (2008) a violência urbana tem sido pauta na maioria dos noticiários em diversos veículos de comunicação, sejam em telejornais, nos diários impressos, no rádio, na internet e etc. Dessa forma, frequentemente somos alertados através da mídia, e até mesmo nas conversas informais com amigos, vizinhos, familiares sobre histórias relativas a crimes que tem se manifestado em diversos setores da sociedade e que tem preocupado não só a população, mas também diversos estudiosos (ADORNO, 1998; MARTUCCELLI, 1999; CALDEIRA, 2000; SOUZA, 2008) de diversas áreas que têm se esforçado para compreender as múltiplas facetas desse fenômeno. Por outro lado, ao mencionar a violência urbana como um obstáculo a ser enfrentado, precisamos nos esforçar para entender a sua relação com outra categoria importante: o medo.
De acordo com Bauman (2008) o medo é bem mais assustador quando ele é difundido sem endereço nem motivos claros, e se espalha por todas as atividades existenciais. A ideia de medo foi se transformando ao longo do tempo. Se antes o medo advinha principalmente dos ataques da natureza, com o passar do tempo ele foi se constituindo através das relações sociais, em outras palavras, do próprio convívio social (CORRÊA, 2008).
Paradoxalmente nossa sociedade é mais (in) segura em termos de aparatos protetores, segurança particular, equipamentos de segurança, espaços cercados, fechados, controlados 24 horas etc. Ao lado dessa indústria da segurança particular, temos percebido que a adoção de um estilo de vida em condomínios residenciais fechados tem contribuído para fragmentar cada vez mais o espaço urbano, e a violência e o medo têm contribuído para novas formas de sociabilidade, e, além disso, como colocou Souza (2008) essa autossegregação é um dos componentes que tem fragmentado o tecido sócio-político-espacial com a expansão dos condomínios, e isto representa não uma solução, mas uma fuga para o enfrentamento da violência e do medo. Além disso, sob a justificativa do medo e da violência (CALDEIRA, 2000), alguns grupos sociais têm “resolvido” tal questão circulando cada vez menos em espaços públicos. E isso, talvez seja um dos motivos que tem ajudado a promover estigmas contra aqueles que são considerados “suspeitos” por circularem com mais frequência nas ruas, nas praças, e que, ao mesmo tempo tais “soluções individualistas de proteção” são formas de manter hierarquias de classes sociais, impondo que “cada um fique no seu lugar”.
Os anúncios publicitários de condomínios residenciais, por sua vez, procuram se “alimentar” desses relatos diários da mídia sobre crimes, violência e o medo atrelado a eles, trazendo em suas ilustrações, cores e frases de efeito a “solução” para os problemas da violência em diversas cidades brasileiras, vendendo a ideia de que morar nesses espaços constituem a melhor forma de viver tranquilo e seguro, procurando criar um “mundo ideal” ao buscar através de estratégias publicitárias removerem os defeitos do “mundo real”, convencendo os futuros moradores de seus domínios.
Sobre as imagens construídas em relação à violência, cada pessoa expressa diversos sentimentos sobre ela. Em alguns casos, existe uma relação direta com a experiência de ter sido vítimas de assaltos em algum momento da vida. Em outros casos, suas percepções estão relacionadas, mesmo que implicitamente, às imagens, às notícias veiculadas nas mídias, ou ainda com “casos ocorridos com parentes próximos e amigos ancorados em outros territórios” (SPOSITO E GÓES, 2013, p.51).  Mas não podemos nos esquecer, que, a sensação de insegurança em virtude da violência pode até chocar, mas há quem lucre (e muito!) com a sua permanência. De um lado, a violência é representada como um fator constante e presente no dia a dia dos indivíduos, pois há quem diga que “a cidade, o bairro, o mundo de hoje em que vivemos não oferece segurança nenhuma”. Do outro, as notícias veiculadas sobre violência, sob o aspecto da criminalidade, têm rendido boas manchetes, uma ampla audiência e gerado bons negócios. Com efeito, as empresas de segurança privada também tem se beneficiado com a venda de serviços e equipamentos de proteção destinados a bancos, indústrias, shopping-centers e até nos condomínios residenciais para impedir que “intrusos” adentrem seus espaços agora fortificados.
A violência também se apresenta como uma categoria acusatória, que reforça a todo instante que o perigo vem sempre do outro: do entregador de encomendas; dos mais jovens; dos usuários de drogas; dos pedintes; dos “delinquentes” e “maus elementos”. É associada também à pobreza, à “falta de educação das pessoas”, ao “descompromisso” da esfera pública, de famílias “desestruturadas”, mas de forma alguma mencionam a desigualdade social promovida pela construção de mecanismos de defesa, fomentando o isolamento, o controle e a separação (CALDEIRA, 2010, p. 98). Há quem reforce que é preciso a presença da polícia nas ruas para inibir a ação de “criminosos” ou para intimidá-los, mas que os policiais sejam pessoas qualificadas. Outros sugerem a redução da maioridade penal para 16 anos; prisão perpétua; um código penal mais “efetivo” dentre outras “soluções”. Acontece que a luta pelo direito de uma cidade mais inclusiva a todos é colocada de lado, priorizando medidas “individualistas” de proteção que funcionam como uma fuga de problemas coletivos, contribuindo para uma cidade dividida, fragmentada, segregada, onde o medo e a insegurança são constantes.
Vivemos em uma sociedade individualizada, que “caracteriza-se pelo afrouxamento dos laços sociais, esse alicerce da ação solidária” (BAUMAN, 2008, p. 33). Por fim, enquanto não assumirmos que o problema é coletivo, continuaremos cercando nossas cidades e construindo nossos muros, com a falsa ilusão de que estaremos seguros, fingindo que estamos protegidos de um perigo que nós mesmos produzimos.

Gláucia Santos de Maria



[1] (DE MARIA, Gláucia Santos. Moradas de medo e esperança: Violência urbana, medo, mídia e estratégias de proteção dos moradores de condomínios em Campina Grande. Monografia em Ciências Sociais. UACS-UFCG, 2014).

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O fim do complexo de vira-lata?

      


      O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues certa vez destacou que o brasileiro sofria de um complexo de vira-lata. Essa expressão dada pelo escritor foi em relação ao trauma sofrido pelos brasileiros com a derrota da copa de 1950, realizada no Brasil, mas esse sentimento estava muito além do futebol. A derrota para os uruguaios não custou apenas uma taça, e sim o desejo de grandeza que o brasileiro carecia para se libertar do passado de colonizado, que diminuía sua estima. O brasileiro para Nelson Rodrigues seria um Narciso às avessas que cuspia na sua própria imagem e não acreditava na sua nação. Na abordagem do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, esse retrospecto seria mudado no governo de Juscelino Kubichek atrelado a uma tabelinha com o futebol.
            Em um dos capítulos do livro “Feliz 1958 o ano que não devia acabar”, intitulado “A tabelinha de Pelé e JK”, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos apresenta como o futebol seria utilizado como carro chefe para mobilizar o povo e aumentar o carisma em cima do governante da nação Juscelino Kubichek no ano 1958.  O presidente JK iniciara esse ano ainda sofrendo pressão das correntes militares e dos oposicionistas que se utilizavam de jornais para atacá-lo. Diante dessa pressão, JK possuía um trunfo nas mangas, e esse trunfo era a construção de Brasília, uma capital moderna, e pelo o andar da construção, a nova capital federal seria entregue na data estipulada pelo presidente em 21 de abril de 1960. Todavia, um problema tinha que ser “resolvido” a autoestima do brasileiro, que tinha sido atacada com a derrota do seu excrete de futebol em 1950.
            Como uma derrota em um esporte poderia gerar um trauma em uma nação? E evidenciar problemas antigos que o brasileiro possuía em sua estima? A reposta para essas perguntas podem ser respondidas com uma passagem da obra de Joaquim Ferreira dos Santos, ao narrar que os jogadores da seleção brasileira tremeram dentro de campo. E, além disso, foram submissos admitindo que o seu adversário fosse superior. A tapa que o zagueiro Bigode levou de um uruguaio sem revide, seria a prova da aceitação daquele complexo que Nelson Rodrigues evidenciou. O brasileiro sentiu a dor da derrota, pois o futebol já era um esporte considerado pelos brasileiros nesse período uma arte já dominada com excelência por seus nativos. A construção do trauma surge daí, se não era possível ganhar no que somos bons, imagine no que não temos de bom. Nesse contexto Joaquim Ferreira nos apresenta JK e o garoto Pelé que mudariam esse paradigma no ano 1958.
            A ajuda financeira do governo a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) seria fundamental para o propósito de alavancar a estima do brasileiro. Os jogadores da seleção brasileira foram preparados para uma “guerra”. Ao lado desses jogadores uma bateria de profissionais que dariam apoio para estes, inclusive para brigar se fosse o caso. A contratação do preparador físico Paulo Amaral, não seria apenas pelos seus dotes como profissional, e sim, segundo Joaquim Ferreira do Santos, pela sua fama de desordeiro no Rio de Janeiro, o seu porte físico ajudaria nas confusões que a seleção brasileira poderia ter na Suécia. A iniciativa do presidente JK de financiar a seleção, no intuito de conquistar a taça do mundo seria positiva. Da Suécia nossos jogadores voltariam com a taça de campeão. Todo investimento feito por JK para apagar o “trauma” de 1950 seria positivo para o seu governo. A gratidão do presidente, para com os jogadores era tanto que segundo Joaquim Ferreira dos Santos, o mesmo não se contentou em apenas em receber os jogadores no palácio do Catete, e sim premiou os familiares dos atletas com empregos públicos.
Esse gesto de JK mostra a importância do feito para nação brasileira, que comemorava ao som de uma canção que iniciava assim: “A taça do mundo é nossa com brasileiro não há que possa”. A canção já demonstra o quanto a estima do brasileiro teria aumentado com essa conquista. Até chegando ao ponto do presidente Juscelino Kubichek falar grosso com os Americanos, que estavam dificultando para emprestar dinheiro, JK precisava do dinheiro para sequenciar suas obras. Já que os americanos não queriam ajudar, ameaçar se aliar aos Soviéticos era uma boa alternativa, que com certeza mobilizou os americanos a viabilizar recursos para as obras de JK.
A Tabelinha de Pelé e JK escrita pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, acaba mostrando bem, como o presidente Juscelino Kubichek se aproveitou do momento que o Brasil vivenciou em 1958. A empolgação do povo brasileiro com o título da seleção brasileira fazia com que os jornais esquecessem um pouco da dívida externa que estava alta, em decorrência dos muitos empréstimos feitos por JK para financiar a construção de Brasília, como também a inflação que chegava a altos índices. Isso não importava o brasileiro estava feliz, tinha sido campeão no estrangeiro, e descoberto um craque, o menino Pelé. Junto com ele JK tabelou, e marcou um verdadeiro gol de placa. Se o ano de 1958 foi bom para o Brasil, para o presidente Juscelino Kubichek foi maravilhoso, pois este conseguiu afastar seu principal adversário Carlos Lacerda da imprensa, e viu sua popularidade aumentar, mesmo com os muitos problemas sociais vividos no Brasil. Então se 1958 começou para JK com turbulências, findava apoteoticamente na visão de Joaquim Ferreira dos Santos.


Ronyone de Araújo Jeronimo

domingo, 29 de junho de 2014

Across the Universe: A ascensão meteórica e o ritmo frenético dos meninos de Liverpool



Beatles, quem não curte essa banda que marcou uma geração? Bem, se você não gosta ao menos já escutou alguma música dos garotos de Liverpool. Esse texto vem proveniente de uma apresentação feita por mim na Roda de Conversa, uma atividade realizada pelo PET-Antropologia (UFCG), essa atividade tem o intuito de sair um pouco do universo acadêmico com suas teorias, e trazer assuntos que perpassem no âmbito cultural e literário. Diante disso, eu apresentei a banda The Beatles contando um pouco da trajetória e a ascensão destes rapazes.
 Então para começar, anteriormente aos Beatles, em 1955 John Lennon junto aos seus colegas de sua escola (Quarry Bank School) cria uma banda denominada Quarremen, que tinha o estilo de fazer o som Skiffle, ou seja, fazer o som com vassouras, panelas etc. Posteriormente, a banda liderada por Lennon, deixaria o Skiffle  e adotaria o Rock n’ Roll como ritmo. Dois anos depois, em 1957, Paul McCartney vai a um show da banda de Lennon e toca com eles a música “Twenty Flight Rock” e então é convidado por Lennon a se juntar a sua banda. A partir de então, Lennon e McCartney fazem uma dupla de compositores, mesmo compondo músicas em separado, assinavam como Lennon/ McCarteney. John tinha um aspecto de compor letras mais surrealistas, já as músicas compostas por Paul tinham aspectos mais românticos.
Em 1958, Paul apresenta George Harrison a John, e este os surpreende com o fato de ser um ótimo tocador de guitarra. Um fato curioso que marca muitos grupos musicais é a mudança constante do nome da banda, a dos The Beatles chegou a ser chamada de: Johnny and the Moondogs; Long John and The Silver Beatles. Depois de muitas mudanças, o nome The Beatles se firmou, fazendo uma analogia aos besouros (beetles) e as batidas (beat).
Em 1960 John convenceu seu amigo de faculdade Stuart Sutcliffe a se juntar a banda e tocar o baixo. Como o grupo não tinha um baterista fixo, quando iam tocar sempre chamavam um diferente. Então, ao tocarem em um pub de Liverpool conheceram Pete Best e ele começou a acompanhar a banda. Tempos depois Stu saiu da banda, os Beatles passaram a ser um quarteto tendo Paul assumindo o lugar do contrabaixo.
A primeira viagem realizada pela banda foi para Hamburgo, lá eles gravaram três músicas em estúdio com o cantor Tony Sheridan, entre as canções gravadas estava “My Bonnie”(link da música: https://www.youtube.com/watch?v=9l1pJ9mSTsI ) . Como The Beatles já tinha certa popularidade em Liverpool e tocava no Cavern Pub, Brian Epstein foi ver a banda em uma de suas apresentações e ficou impressionado e decidiu torna-se empresário deles. Epstein começou a correr atrás de gravadoras, a primeira que tentou (Decco Records) que negou, pois acreditava que o Rock n’ Roll logo ia desaparecer. No dia 6 de junho de 1962 conseguiram seu primeiro contrato com a gravadora Parlophone.
Após a contratação pela Parlophone, resolveram dispensar o baterista (Pete Best), pois este tinha um gênio difícil. No lugar de Pete, chamaram Ringo Star, um garoto também de Liverpool que tocava em outra banda. Em outubro de 1962 gravaram o primeiro compacto com as músicas “Love me Do” (link: https://www.youtube.com/watch?v=Jbt8oH5Lxto ) e “PS I love you” (link: https://www.youtube.com/watch?v=p41xLRmEPoY).
A música “Please, Please me” (link: https://www.youtube.com/watch?v=QOZ17BWje1Y ), lançada em outro compacto em novembro, atingiu o primeiro lugar nas paradas inglesas em 1963. Logo começaram a gravar seu primeiro álbum, intitulado “Please, Please me”. No álbum não tinha apenas composições de Lennon e McCartney, mas também de outros cantores admirados na época. Em abril do mesmo ano, o grupo conseguiu primeiro lugar de novo nas rádios com a música “From me to you”.
Ainda em outubro fizeram sua primeira turnê pela Europa, onde puderam ver a mesma histeria que estavam causando na Inglaterra. Em novembro, se apresentaram no Royal Variety Performace (link: https://www.youtube.com/watch?v=a_RHazQsLBA ), na presença da Rainha da Inglaterra. No mesmo mês, lançaram seu álbum With the Beatles, contendo músicas extras como “She loves you” (link: https://www.youtube.com/watch?v=T0YifXhm-Zc ) e “I want to hold your hand” (link: https://www.youtube.com/watch?v=3MHkgwA8t-g).
Para conquistar o mercado americano, Epstein os levou para lançar a música “I want to hold your hand” e participar do programa de Ed Sullivan nos EUA, esse programa de televisão se caracterizava como o mais popular entre os estadunidenses. Ao desembarcarem nos EUA em 07 de fevereiro de 64, se depararam com milhares de fãs aguardando-os. Em sua primeira viagem, se apresentaram três vezes em Ed Sullivan e bateram recorde de audiência em uma transmissão ao vivo, alcançando 73 milhões de espectadores.
De volta à Inglaterra, a banda fez um longa metragem dirigido por Richard Lest, A Hard day’s night. E no mesmo ano, lançaram um álbum com o mesmo nome do filme com apenas composições de Lennon/McCartney. Em 64 realizaram uma turnê pelos EUA e Canadá com 30 shows em 32 dias. E em 15 de agosto de 65 se apresentaram em no Shea Stadium para um público de 56 mil pessoas.
Em 1965 gravaram seu filme Help! e lançaram um disco com o mesmo nome. O LP foi um sucesso por causa das músicas: Help!, Yestarday, Ticket to the Ride e You’ve got to hide your love away. Com o lançamento do álbum Rubber Soul no mesmo ano, ganharam a confiança para ter mais liberdade em estúdio e explorar mais a musicalidade. As canções de mais sucesso: Michelle, Nowhere man, In My Life, Drive my car e Norwegian Wood.
Em 1966 foi realizado o último show dos The Beatles em San Francisco. Os integrantes da banda afirmavam que queria apenas se dedicar a gravação de disco em estúdios. Em 66 lançaram outro álbum inovador chamado Revolver, que continha três composições de George e todas as outras de Lennon/McCartney. As músicas de mais sucesso foram: Eleanor Rigby e Yellow Submarine (link: https://www.youtube.com/watch?v=qE0B5rYdy8I).
Em 1967, lançaram o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, que foi considerado o melhor álbum de rock de todos os tempos. O álbum foi gravado e um período de 129 dias e continha as músicas Strawberry Fields Forever (link: https://www.youtube.com/watch?v=J3jrWVp2L7U) e Penny Lane. O disco ganhou o Grammy awards de melhor álbum do ano. No mesmo ano, a banda lança um compacto com a música “All you need is love” (link: https://www.youtube.com/watch?v=s-pFAFsTFTI) e apareceram tocando ela em um programa  de tv ao vivo ao mesmo tempo, para diversos países.
Em 1967, John conhece Yoko Ono e a carreira musical começa a ficar em segundo plano. Nesse mesmo ano, por uma ideia de Paul, The Beatles se empenha para fazer um novo filme Magical Mystery, desagrada críticos e fãs. Paul e John criam a Apple Corps e lançam um compacto com as músicas Revolution (https://www.youtube.com/watch?v=KrkwgTBrW78 ) e Hey Jude.
Em meio às brigas dentro da banda, o grupo lança um disco duplo intitulado The Beatles. O álbum contou com a participação de Eric Clapton na música While my guitar gently wheeps. Em 1969, se reuniram para fazer o filme Get Back, que tornou-se um documentário sobre o fim da banda. Porém, o filme foi arquivado. No mesmo ano, se juntaram para fazer seu álbum de maior sucesso: Abbey Road, o álbum traz duas músicas de George: Something e Here Comes the Sun (https://www.youtube.com/watch?v=Bj1AesMfIf8). Em 1970, Paul em uma entrevista anuncia o fim da banda.
O filme e o álbum “Get Back” foram reformulados e lançados com o nome de Let it be. Depois dos anos 70, a banda nunca mais se reuniu para gravar uma música juntos. Em 1980, Lennon foi assassinado por um fã. E em 81 os outros três integrantes, gravaram uma música em homenagem a Lennon. Em 95, lançaram The Beatles Anthology, que continha um filme, um livro e três álbuns. No ano de 2001, George morre de câncer, ficando apenas Paul e Ringo.


Ana Carolyne Brasileiro Torres, graduanda do  sétimo período do curso de Ciências Sociais (UFCG) e bolsista do PET Antropologia (UFCG).

sábado, 31 de maio de 2014

Candomblé: repressões e resistências


Desde o período escravocrata, diversos grupos étnicos oriundos do continente africano desembarcaram em solo brasileiro, trazendo com eles seus costumes, valores, etc. Sem dúvida, a presença de diferentes grupos advindos de várias regiões africanas foi importante para a formação cultural do povo brasileiro, exercendo forte influência em diferentes aspectos, entre eles a questão da religiosidade. Segundo (SILVA, 2012) diversas foram as religiões que cruzaram o oceano, já que cada povo possuía a sua. Algumas delas foram absorvendo outras crenças, ou ao contrário, muitas foram por elas absorvidas, criando sistemas religiosos novos, como o foi com a umbanda. Outras religiões não deixaram vestígios. Entretanto, a religião dos orixás se converteu em grande quantidade, especialmente no Brasil e em Cuba, e “o que era a religião dos iorubás tornou-se uma religião” de caráter universal (p.20).

          Acontece que, mesmo “libertos” do regime escravista (SKIDMORE, 1976) em fins do século XIX e início do XX, diversos grupos étnicos escravizados que aportaram no território brasileiro, ainda continuavam sofrendo restrições, perseguições e, eram muitas vezes, impedidos de expressarem seus cultos religiosos e tradições de seus lugares de origem. Sobre esses os cultos religiosos, o candomblé é um bom exemplo disso.

De acordo com Márcia Sant’Anna (2006) os terreiros de candomblé sofreram diversas perseguições e proibições até meados da década de 1930. Ela acrescenta que eles eram alvo de repressões constantes das forças policiais. Entretanto, esses conseguiram resistir às pressões e sobreviver devido às diversas alianças que conseguiram estabelecer. A autora coloca que uma das estratégias para a constituição e sobrevivência dos candomblés se deu mediante a aliança com o catolicismo, pois isso servia como um subterfúgio para escapar da repressão policial, já que o culto africano ficou mais próximo do culto oficial, percebido por alguns como uma possibilidade para a conversão dos seus praticantes à religião católica. Por isso que encontramos “altares católicos em todos os candomblés; todos os orixás têm correspondentes entre os santos da Igreja” (CARNEIRO, 1954, p.45). Sobre as medidas repressivas sofridas pelos praticantes dos cultos gegê-nagô na Bahia Nina Rodrigues apontou:


No Brasil, na Bahia, são ao contrário consideradas práticas de feitiçaria, sem proteção nas leis, condenadas pela religião dominante e pelo desprezo, muitas vezes apenas aparente, é verdade, das classes influentes que, apesar de tudo, as temem. Durante a escravidão, não há ainda vinte anos, portanto, sofriam elas todas as violências por parte dos senhores de escravos, de todo prepotentes, entregues os Negros, nas fazendas e plantações, à jurisdição e ao arbítrio quase ilimitados de administradores, de feitores tão brutais e cruéis quanto ignorantes. (p.264)


Mas apesar das repressões por parte do poder estatal, o autor afirma que os cultos resistiram às pressões impostas pelo catolicismo, às violências dos senhores de escravos, às propagandas negativas da imprensa da época, à repressão policial.

Além disso, outro laço importante nesse processo foi à aliança com indivíduos influentes que apoiavam, participavam e protegiam os terreiros. Segundo Sant’Anna (2006) ogan era um tipo especial de sacerdote do culto nagô, do sexo masculino, que não incorpora divindades, mas realiza tarefas específicas como a música e os sacrifícios, além de outras, administrativas e de representações. Assim, a figura de ogan presente em diversos candomblés era reservada a homens, e tal presença se estabeleceu em muitos casos através dos vínculos entre estudiosos que pesquisavam em terreiros de candomblé, a exemplo de Nina Rodrigues, Edison Carneiro, Arthur Ramos, Jorge Amado, Roger Bastide (SANT’ANNA, 2006; CAPONE, 2004.) que foram ou são ogans de alguns terreiros tradicionais da Bahia.

            Outra questão que nos chama a atenção é no que diz respeito aos terreiros de candomblé como patrimônio nacional. Segundo (SANT’ANNA, 2006) os terreiros de candomblé são vistos como lugares de preservação de memória. Isso pode ser observado no modo pelo qual se reverencia os ancestrais, bem como “na prática religiosa de marcar o lugar ‘habitado’ por uma divindade ou, ainda, na preservação dos rituais e da língua de cada ‘nação’”. Além disso, essa relação estabelecida entre comunidade de culto com o espaço do terreiro é perpassada pelo sagrado. O culto tem um lugar específico para ocorrer ali, tendo em vista que no seu centro simbólico se encontra enterrado o axé da casa, que move a conexão entre a força divina e dos mortais. Por isso a fundamental importância de se preservar esse espaço sagrado para a continuidade das expressões religiosas dos seus integrantes.

Dessa forma, os terreiros de candomblés em termos de instituição no Brasil, foi uma forma estratégica de sobrevivência cultural, de acordo com a autora, da busca da preservação de uma memória coletiva. Ela aponta que os terreiros mais antigos de Salvador se remetem à história da própria cidade. Alguns terreiros ditos tradicionais se tornaram patrimônio cultural do Brasil. Assim, o Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho considerado como o mais antigo da cidade, e visto como a grande matriz do culto de raízes africanas é um bom exemplo dessa busca de preservação da história da presença africana no Brasil, bem como da preservação dos seus cultos. Além disso, outros terreiros, a exemplo do Terreiro do Axé Opô Afonjá, o Terreiro dos Gantois, o Terreiro do Bate Folha também foram designados como patrimônio cultural do Brasil. E não podemos esquecer que em São Luís (Maranhão) o Terreiro da Casa das Minas (jejê) também foi declarado patrimônio nacional (SANT’ANNA, 2006, p.9-10).

Por fim, pudemos perceber que várias foram as tentativas de se explorar esse universo conhecido pelo nome de candomblé. Vimos que o esforço teórico de muitos estudiosos foi e é importante para a compreensão desse universo tão vasto. Além disso, esses estudos nos possibilitaram apreender que a presença de diferentes etnias de origem africana exerceu forte influência na religiosidade da população brasileira. De acordo com alguns estudos, a fundação do candomblé do Engenho Velho na Bahia marcou o início de uma nova fase de culto no Brasil. Através de alguns autores pudemos observar que os terreiros de candomblé e os seus participantes sofreram diversas perseguições, principalmente as repressões policiais. Entretanto, para resistir a essas pressões, seus atores utilizaram de estratégias para manter a sobrevivência dos candomblés através de alianças. Uma delas foi com o catolicismo, e a outra foram os vínculos que firmaram com aqueles que protegiam os cultos (ogans). Por último, analisamos a institucionalização de alguns terreiros de candomblé que se transformaram em patrimônio cultural do Brasil, objetivando preservar a memória coletiva para dar continuidade às manifestações religiosas dos seus descendentes.



Gláucia Santos de Maria

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Brasil: modernidade e “atraso”. Representações do povo brasileiro nas primeiras décadas do século XX

           


          O Brasil nas primeiras décadas do século XX vivenciava o desejo de se tornar uma nação civilizada e moderna, inspirada nas civilizações européias, principalmente na França. O país iniciaria um processo de reforma urbana, tomando como exemplo a reforma que a cidade de Paris sofrera na metade do século XIX. Com o intuito de promover para o Brasil, não só transformações nos espaços físicos de suas cidades, e sim construir novos hábitos, que eram comuns em países civilizados como a França.
 O Rio de Janeiro que era a capital do país no período destacado seria a primeira cidade brasileira a passar pelo processo de europeização, trazida com as reformas empreendidas pelo prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1902-1906). Uma figura que ficaria conhecida em circunstância da reforma urbana feita no Rio de Janeiro, que alargaria e abriria ruas, construindo grandes avenidas. Essas reformas tinham o propósito de embelezar a cidade do Rio de Janeiro e dificultar a proliferação de doenças. Essa reforma possuía então o intuito de higienizar a cidade. Com essa perspectiva, medidas foram adotadas com intenção de suprir essa necessidade. Entre essas medidas, estava o saneamento e a vacinação da população.
            A reforma urbana no Rio de Janeiro geraria conflitos em decorrência do governo autoritário de Pereira Passos. Porém, essa reforma, aos moldes de cidade francesa, se tornaria exemplo para outras cidades do Brasil. Desse modo, nas primeiras décadas do século XX serão evidenciadas por todo país essas mudanças, que trazia junto com elas, novos costumes que surgiam com os novos espaços. O desejo das autoridades públicas de construírem uma população civilizada e modernizada semelhante à sociedade europeia acabaria promovendo uma dicotomia, que deixaria os habitantes do Brasil entre a modernidade e o “atrasado”.
            Essa dualidade será observada pelo historiador Elias Tomé Saliba, a partir de uma vertente cômica, permitida por um conjunto de fontes (Charges, imagens, anúncios, livros) que elucidam o momento em que o Brasil vivia nas primeiras décadas do século XX. Todavia, o objetivo buscado por esse texto é trabalhar como a figura do “atrasado” se manifesta nessas fontes trabalhadas por Saliba, observando, que mesmo vivendo um processo de modernização nas cidades do Brasil nas primeiras décadas do século XX, a representação do brasileiro por muito tempo será a imagem do Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato, que ganharia com esse personagem um concurso da revista Fon Fon. Este prêmio seria entregue para uma pessoa que conseguisse criar um personagem que mais representasse unitariamente o brasileiro.
            A imagem do Jeca Tatu representava o “atrasado”, um ser que mesmo com o processo de modernização trazido pelas reformas urbanas, não teria sido inserido nessas transformações. O personagem que representava o povo brasileiro, no seu geral, estava assolado por enfermidades e maus costumes, que propiciavam a indolência de espírito, que não deixava o Brasil crescer.  Lobato, a partir do personagem Jeca Tatu, desconstruiu a figura do trabalhador rural, antes reconhecido como uma força braçal sadia e forte, para se tornar um doente e fraco na imagem caricaturada do Jeca Tatu. A intenção de Monteiro Lobato com Jeca Tatu, era alertar as autoridades do Brasil, que a modernização, e os bons costumes deveriam chegar aos quatro cantos do Brasil. E não só nas principais cidades da Nação.
            Apesar de o Jeca Tatu ter sido criado buscando enfatizar a figura generalizante do povo brasileiro, outra representação surge no Nordeste, a figura do Mané Xiquexique, personagem nascido no Ceará, criado por Ildefonso Albano, que se contrapunha ao personagem de Monteiro Lobato. Mostrando que o personagem nordestino poderia sobreviver e prosperar em qualquer solo, não importando a dificuldade do mesmo, o personagem de Albano seria o interiorano típico do Nordeste, que mesmo com as dificuldades, se mostrava forte e pronto para o trabalho. Se por um lado Albano buscou com o personagem Mané Xiquexique criar uma representação positiva para o povo brasileiro, por outro lado acabou corroborando para perspectiva do ser “atrasado” e não moderno. Já que o Mané Xiquexique seria um matuto, que enfrentava a miséria com o bom humor. Isso seria uma representação de um povo que era “conformado” com a vida miserável que tinha e não buscava melhoras para essa situação.
            Essas eram algumas das representações que buscavam traduzir a personalidade generalizante do povo brasileiro. Mostravam para as autoridades públicas do Brasil, o que estes buscavam esconder para os estrangeiros de que a nação brasileira ainda vivia no atraso. O exemplo do Rio de Janeiro e de outras cidades do Brasil que no decorrer das primeiras décadas do século XX adotaram reformas urbanas, com intuito de modernizar, se tornando exemplo de que o Brasil estava se modernizando, e se civilizando, caía por terra, com as representações feitas pelos intelectuais, que mostravam a “verdadeira” realidade do Brasil. Uma realidade que se perpetuou por mais algumas décadas do século XX. Para comprovar esse argumento, basta acompanhar a cinematografia do comediante Amâncio Mazzaropi, que até o fim da vida deu vida ao personagem Jeca.
O seu sucesso como comediante era exposto por alguns críticos de cinema, pelo fato deste igualmente “A Chaplin, procurar fundir as duas expressões. O segredo de sua permanência é antiguidade. Ele atinge o fundo arcaico da sociedade brasileira de cada uma de nós”. (Saliba, 1998, p.359). O sucesso de Mazzaropi no cinema brasileiro se devia ao fato do Brasil estar entre a modernidade e o atrasado, os personagens de Mazzaropi que abordavam o arcaico, construía no público que assistia seus filmes uma identificação com que estava sendo trabalhado. Logo é possível observar que a modernidade no Brasil foi um processo lento, que só aos poucos foi chegando aos demais lugares do Brasil.

Ronyone de Araújo Jeronimo

sábado, 8 de março de 2014

Mulheres: das margens às conquistas





Dizer que a mulher é mistério não é dizer que ela se cala e sim que sua linguagem não é compreendida; ela está presente, mas escondida sob véus; existe além dessas incertas aparições. (BEAUVOIR, Simone, 1970)

Ao longo da história das diversas sociedades, as mulheres de diversas maneiras têm sido colocadas às margens da história, e muitas delas, durante muito tempo foram silenciadas, mas pouco a pouco foi mudando esse paradigma em busca de reconhecimento social dos seus direitos e de igualdade de cidadania.
Uma questão que merece destaque é o enfrentamento do processo de dominação masculina. Bourdieu (2010) já apontava que tal processo é favorecido por instâncias que procuram através de seu poder garantir tal dominação. Para este autor, instituições como a família, a escola, a Igreja e o Estado são os principais influenciadores para tal dominação preponderar, principalmente sobre as mulheres. Tais instâncias estabelecem laços fortes, que são arraigados na história como meios de dominação. Nesse sentido, as instâncias sociais perpetuaram durante muito tempo o modo pelo qual os comportamentos, os papeis deveriam ser assumidos e, como forma de poder possibilitou a diferenciação entre os sexos, etc.
Podemos acrescentar que ao longo do tempo muitas mulheres foram se livrando,  aos poucos das amarras sociais, mesmo que isso fosse um desafio.  Vejamos algumas questões. Se por um lado havia um discurso de que a mulher devia ser mãe e procriadora, acontece que isso nem sempre era o desejo dela. De acordo com Mary Del Priore (2011) na década de 1940 o Código Penal Brasileiro definia que a mulher que abortasse levaria de 1 a 3 anos de prisão. Havia exceções caso a mulher fosse vítima de estupro, mas por outro lado, sofriam repressão por parte da polícia que invadia suas casas, por parte da família e dos vizinhos que as difamavam e espalhavam fofocas a seu respeito. E o que dizer desse assunto tão polêmico ainda nos dias de hoje? Esse ainda é um tema muito contestado...
Outra questão que podemos destacar é que uma conquista bastante importante foi o acesso à cidadania através do voto feminino, conquistado aqui no Brasil em 1932 através de um Decreto-lei durante o governo de Getúlio Vargas. Mas apenas algumas podiam votar, de modo que elas puderam exercê-lo plenamente, apenas, em 1933. Depois da eleição de “1934, que teve a primeira escolha de uma representante feminina, as emancipacionistas brasileiras passaram a lutar por novos objetivos. Entre eles, destaca-se a aprovação do Estatuto da Mulher”. (GUERRA, 2009, p.4)
A historiadora Margareth Rago (apud Silva, 2011) aponta que aqui no Brasil a ruptura dos moldes da cultura sob a visão masculina ocorreu principalmente em dois momentos. O primeiro momento foi marcado pela luta de movimentos sociais na década de 60 em que estes questionavam o regime militar, e, sobretudo as estruturas sob o viés masculino que predominava ao longo da história da sociedade brasileira em que seu lugar era a esfera privada, tendo acesso limitado à esfera pública. Os movimentos feministas da década de 60 e 70 afirmavam que as mulheres poderiam sim, assumir cargos públicos, ao mundo do trabalho, a vivenciar a política não só nos bastidores, mas na esfera representativa (SILVA, 2011).
Estudos como O Segundo sexo da filósofa e feminista Simone de Beauvoir, contribuiu para revisitar a história dessas mulheres e apontar as mudanças sofridas por elas, na medida em que era preciso repensar seus mais variados papéis: sociais, sexuais, de gênero, na busca de desnaturalizá-los.
Sabemos que poderíamos colocar outras questões acerca do enfrentamento das mulheres, sobretudo da mulher brasileira, na busca de garantir seu reconhecimento de seus direitos humanos de igualdade e exercerem sua cidadania. De todo modo, podemos afirmar que, a história das mulheres sempre foi marcada por diversas lutas, uma delas é a construção de romper com certos modelos, que antes as colocavam como meras sombras dos homens, servindo apenas, como auxiliar, e não como protagonista da sua história, de exercer a sua liberdade e viver em igualdade.
Poderíamos acrescentar que um dos desafios é conseguir na prática que a equidade de direitos, de que todos os possam ser respeitados segundo sua diversidade, na busca de justiça social, reconhecendo as necessidades dos diferentes grupos, inclusive, dos diferentes grupos de mulheres. O que nos incomoda ainda é saber que muitas de nós somos agredidas física, psíquica, e verbalmente todos os dias. Quantas de nós ainda somos julgadas por não seguirmos determinado padrão de beleza? Quantas de nós sofremos piadinhas grotescas? Quantas de nós ainda vamos ser insultadas por vestir determinadas roupas? Quantas de nós sairemos de vítimas à acusadas de nosso próprio estupro? Quantas de nós sentiremos vergonha por sermos violadas por nossos familiares? Quantas de nós seremos detentas em presídios e não teremos o direito à dignidade, aos estudos, à visita intima? Quantas mães, irmãs, amigas, namoradas terão como algoz o espelho e se abaixarão e levantarão diante dele numa revista íntima no presídio? Quantas de nós, quantas de nós?
*
Já disse, dá licença!
Desculpa, não quero conselho!
E afasta um pouco do espelho!
É, mais uma vez retocarei meu batom vermelho.
Eu sei, não é ele que me faz bonita,
Pois sem a minha existência ele não teria nenhum sentido.
Já disse, afasta um pouco!
Os traços escuros do meu rosto representam as dores:
Sofridas por elas, sofridas por nós.
Dá licença, tenho pressa!
Estou pronta: olheiras de cansaço, pés no chão, batom vermelho.
Pois todo dia sociedade:
É dia de luta,
De lutar contra sua opressão.
Então, dá licença!


Gláucia Santos de Maria

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

BRAZIL: refúgio nos sonhos sob o regime militar


Brasil, 1985. Um novo momento político que se diferenciava dos últimos 21 anos anteriores, a qual a nação brasileira conviveu com um regime político autocrático imprimido pelos militares, que tomaram o poder nos idos de 1964 e que após os anos de obscurantismo em razão do regime opressor e autoritário vigente, a luz voltava a brilhar no Brasil com a redemocratização da política. Assim em 1985 o povo brasileiro comemorava o fim do período considerado sombrio e, nesse mesmo ano chegava aos cinemas do Brasil, o filme “Brazil” [1], película produzida na Inglaterra pelo Diretor Terry Gillian. A produção do longa-metragem tivera na época um grande orçamento avaliado em 15 milhões, porém, as arrecadações que o mesmo obtivera não foram boas, e não supriram os gastos empreendidos. E o filme acabou sendo considerado um fracasso.
      O dito fracasso de público do longa-metragem não impediu que o mesmo adquirisse fãs pelo mundo. É tanto que o site IMDB[2] coloca a película Brazil entre os 100 filmes considerados Cult. No país homônimo ao título da produção inglesa do diretor Terry Gillian, são poucos os que conhecem o filme. Para alguns olhos menos atentos (e principalmente nós brasileiros), após assistir a película, ficamos com a impressão de que o titulo do longa não possui nenhuma semelhança com o nosso país. Pelo fato do enredo do filme apresentar uma sociedade futurista e tecnicista, aonde a burocracia impera, nada é resolvido sem assinatura de papeis, e aqueles que discordam dos rumos tomados por aquela sociedade são considerados sabotadores ou terroristas do sistema. Todavia, no sentido comum da palavra, há algumas cenas de atentados terroristas contra cidadãos comuns, que na maioria dos casos buscam agir com naturalidade a esses acontecimentos (um prova disso é a cena do restaurante). O clima obscuro e caótico construído pelo diretor do filme nos faz pensar: o que esse Brazil tem haver com o nosso Brasil?
       Segundo o historiador brasileiro Alcides Ramos, e baseado na perspectiva do historiador francês Marc Ferro “O aspecto mais relevante do filme de ficção, consiste na sua capacidade de dialogar criticamente com o “Presente”, ou melhor, com as lutas políticas do momento histórico em que foi concebido, produzido e exibido”. (Ramos, 2002, p.25)”. A idéia do longa-metragem foi concebida e produzida antes do Brasil se libertar da Ditadura militar. Até mesmo o lançamento do filme no exterior saiu alguns dias antes do dia 15 de março de 1985. Data esta que marca o fim do regime militar, com a posse de um presidente Civil. O longa-metragem de Terry Gillian não se preocupa em destacar uma localidade, é tanto que no inicio do filme é revelado que aquela estória se remete “Em algum lugar do século XX”. Apesar do ambiente futurista, a sua temporalidade está presa a algum momento do século XX que já ocorreu, ou estava para acontecer. Então quer dizer que esse Brazil realmente não tem nada ver com o nosso Brasil? Diferente de alguns comentários que encontrei na internet que elucidam que a única razão do filme se chamar Brazil seja o fato do diretor inglês prestar uma homenagem ao compositor Ary Barroso com a música Aquarela do Brasil, que será exclusivamente a única melodia utilizada no filme (Brasil! Pra mim, pra mim! Brasil!). Apesar desses comentários, ao longo da película, observamos outras questões referentes ao momento que foi vivido pelos brasileiros no período do regime militar. Então, vamos aos personagens.
       No filme dois personagens nos chamam atenção. Um deles é o protagonista Sam Lowry (Jonathan Pryce) um burocrata que procura nos seus sonhos uma forma de fuga da realidade vivida naquele mundo tomado por restrições e controle do Estado. Em seus sonhos Sam Lowry possuía asas, isso pode significar uma possível alusão à liberdade, que o mesmo não possuía. E nem tão pouco se sentia livre para se apaixonar ou viver um amor, já que a mulher de seus sonhos é considerada subversiva para o Estado. Outra imagem que nos chama a atenção é a figura de um samurai que aparece no sonho de Sam Lowry que pode representar o Estado se intrometendo até em seus sonhos. A ditadura e os burocratas do filme eram perseguidores, oprimiam e tirava o direito de fala do povo, que não poderia pensar em idéias que atentassem contra os ideais que o regime pregava. Podemos analisar também outro personagem, chamado de Archibald Tuttle (Robert De Niro) um engenheiro térmico que rompeu com o sistema burocrático vigente, trabalhando por conta própria sem utilização de ordens de serviço, e que diferente de Sam Lowry, tão pouco obedecia às ordens superiores, e os burocratas observam Tuttle como um subversivo: um ser perigoso para o sistema.
      Ainda sobre o segundo personagem, na busca para prender Tuttle, os burocratas acabam prendendo uma pessoa errada, devido um erro de digitação. A prisão de Archibald Buttle, um homem inocente, se assemelha com algumas prisões promovidas pela ditadura por excesso de autoridade ou até mesmo por erros como este representado no filme. Percebemos que, até hoje em dia esses erros continuam, como a longa demora da burocracia para retirar pessoas que foram injustamente presas, da mesma forma aludida pelo filme Brazil. Os burocratas do filme interrogam seus presos, assim como a ditadura militar fazia, com torturas físicas e psicológicas, que chegam a levar até a morte do interrogado. Esse seria o caso do Buttle que acaba sendo morto durante um interrogatório. Outros fatos nos chamam atenção por se assemelhar com a realidade do nosso país. Como problemas de infração, desigualdade social, utilização do famoso pistolão para angariar cargos e etc. O Brazil do filme pode até não ser o nosso, porém, se assemelha muito. 
        No início do texto procurei falar que a ditadura no Brasil, foi um período obscuro na nossa história. Esse clima pode ser análogo com o ambiente construído no longa-metragem Brazil. Já que se observamos atentamente alguns detalhes podemos perceber que, as cores aparecem com um tom de ares felizes, apenas, no sonho de fuga de Sam Lowry, quando este está sendo interrogado pelos burocratas. Para fugir daquela sociedade autoritária Sam Lowry se exila em seus sonhos. Na ditadura muitos brasileiros tiveram que sair do Brasil e se refugiar em outras nações, temendo por sua segurança. E desse lugar de fantasia Sam Lowry cantarola com a melodia de Ary Barroso, dizendo que quer voltar para o velho Brazil de antes, o Brazil anterior daquele pesadelo que tinha se tornado aquela sociedade.Ou seria então, uma volta ao Brasil antes do golpe militar?


Ronyone de Araújo Jeronimo



[1] O filme está disponível no Youtube, no link: https://www.youtube.com/watch?v=XmSBtDLgBSQ
[2] Para ver as especificações do filme “Brazil” feita pelo site IMDB, conferir este link:http://www.imdb.com/title/tt0088846/?ref_=nv_sr_1

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Índios metropolitanos: Movimento Punk dos anos 80

Banda Desgaste Mental (1984)
Fonte: Janice Caiafa

Janice Caiafa mostra através de sua pesquisa etnográfica, intitulada “Movimento punk na cidade- a invasão dos bandos sub”, realizada entre os anos de 1983-85, o modo pelo qual o movimento punk surge e ganha forma no Rio de Janeiro em meados da década de 80 (1983-1985). Vale salientar que a denominação do Movimento Punk surgiu internacionalmente, mas que invadiu diversos países, inclusive o Brasil.
            Caiafa pensa os punks do Rio de Janeiro como que uma tribo, e por isso procura percorrer na literatura antropológica na busca de pensar e apreender o universo desses índios metropolitanos.  Por isso ela afirma que pensar os punks é refletir sobre os seus deslocamentos. E um dos desafios que ela enfrenta é no que diz respeito ao aspecto físico, na medida em que acompanha seus trajetos em vários espaços da cidade: os subúrbios, os becos e também no sentido de uma compreensão do que ela denomina de mapas dos efeitos, uma espécie de cartografia dos exercícios concretos.
            Caiafa mergulha na Cinelândia e na Lapa, procurando conhecer os integrantes do movimento e do bando punk locais, e ao longo do texto ela expõe diversos questionamentos acerca da exuberância do grupo, em relação ao som, o uso do preto das vestimentas, a suástica e outros elementos que compõem esse universo.  Para isso, ela procura reconstruir, através das conversas que teve com alguns dos membros do grupo, uma trajetória do início do movimento punk no Rio de Janeiro.
            Segundo a autora a imagem que os punks transpareciam era de um grupo rude que vagava pela cidade, o que a fez pensá-los em termos de estudos sociológicos sobre gangues, guetos e delinquência juvenil. E, para entendê-los a pesquisadora passou a frequentar juntamente com os punks os principais pontos da cidade, conhecidos como points, as festas e shows que eles organizavam, ou seja, passou a conviver com o grupo, dialogando, observando seus comportamentos, seu modo de fazer cultura (contracultura) suas formas de ação.
            Janice aponta que o modo pelo qual os punks do Rio atuam é como uma espécie de estratégia. Tal compreensão da autora é que o movimento punk do Rio de Janeiro atua em oposição à cultura dominante, por isso que sua forma de se expressar contra esta é chamar a atenção através do estilo da roupa e do cabelo que choca o restante da população que, em certo sentido, é padronizada e disciplinada. Além disso, os shows por eles organizados, os fanzines são, também, formas de protesto contra a cultura dominante, por isso que eles assumem uma posição contracultural.
Além dessas questões ela salienta sobre o modo pelo qual o antropólogo é desafiado, quando este estuda em sua sociedade. A familiaridade com os valores e padrões sociais coloca a questão da distância social que o pesquisador é levado a executar.  Desse modo, ela afirma que é impossível estar com os punks sem estar entre eles, revela ser preciso participar de suas ações.
            A autora descreve em suas páginas como é o visual dos punks, visto como que hostil por parte de outros indivíduos que não pertencem à tribo[1]; ela faz descrições musicais e também dos movimentos das danças.
            Caiafa afirma também que muitos desses meninos de classes menos desfavorecidas, que são punks, são tão bem informados, quanto os garotos da classe média e de músicos brasileiros que curtem o som. Segundo a autora, tocar em uma banda para os punks não depende de ter conhecimento anterior. O que importa é tocar e transmitir a intensidade do som e chocar através das músicas, e que nenhuma banda punk procura conquistar a plateia, mas tocam para eles mesmos. Diferentemente das bandas heavy-metal que exigem conhecimento musical e instrumental e tocam para o público. Talvez por isso que, os punks veem os heavy com maus olhos, e os julgam de ter se vendido ao sistema.
            De acordo com a autora, os punks, através de suas músicas procuram fazer uma crítica social ao explorar em suas letras temas como “exploração econômica, o desemprego, a guerra, a violência, a corrupção do governo, a pobreza e o perigo pelas ruas” (p. 37)
            Em determinada circunstância, a autora fala sobre a relação dos punks com a mídia. Segundo ela, muitos deles resistem aos holofotes, e alguns não se deixam fotografar ou não gostam de conceder entrevistas, já que “existe entre eles a noção de que isso é nocivo para o Movimento, e eles o dizem claramente, ou simplesmente se subtraem aos ataques das mídias” (p.46).
Por fim, podemos afirmar que a pesquisa de Janice Caiafa tem um caráter confessional. Ela atenta para os processos sociais dos acontecimentos humanos, alertando para os desafios do trabalho de campo, e sobre os impasses enfrentados ao estudar o movimento punk. Ao interpretá-los ela procura enfatizar que sua intenção é fazer uma experimentação para dar conta dos processos humanos. Ela está comprometida na busca de trazer à luz um esforço de compreender esse Movimento no Brasil a partir de uma abordagem das Ciências Sociais ao informar as dinâmicas do grupo nos shows, nas festas; apreendendo questões relativas ao gênero; além das estratégias utilizadas pelos punks no Rio de Janeiro para manter o movimento em virtude da chegada e do avanço da new wave.
Gláucia Santos de Maria





[1] Em outro texto que escrevi sobre a experiência vivenciada pela antropóloga Márcia Regina da Costa, quando a mesma pesquisou sobre a religião fundada no âmbito evangélico, em São Paulo,  denominada Zadoque expressa como uma tribo urbana, em que misturava cenários parecidos com os produzidos para shows de rock e rap, bem como circulavam punks, carecas, rappers etc. (Conferir o texto Zadoque: renascendo sem trocar de roupa- http://academicoscuriosos.blogspot.com.br/2011/07/zadoque-renascendo-sem-trocar-de-roupa_12.html).